O facto de ter deixado de vir de carro para Lisboa, e optar por fazer a travessia do Tejo no Combóio da Ponte, mudou em muito os meus dias nesta viagem que faço há anos.
É muito mais cómodo, não há stress que me chegue, ninguem me ultrapassa ou buzina, perco menos tempo no trajecto, não gasto gasolina e ainda... ouço diariamente conversas entrecruzadas, de quem viaja perto de mim. Não não sou cusca (pronto sou um cadinho, vá lá) mas a realidade é que é impossivel ficar alheia às ditas palrações dos passageiros.
As conversas delas:
Os temas são variadíssmos, desde o falarem (e muito muito) dos seus rebentos (todos são precoces, lindos e inteligentíssimos), a falarem de culinária ( até fico enjoada com tanta comida), todas são explêndidas cozinheiras, salvo uma excepção, a comida das mães consegue ser melhor, sendo a das sogras perfeitamente intragável.
E passando às sogras, elas não são só más cozinheiras, são más e ponto!
Nisso tenho de acenar a cabeça em tom de concordância e quase me apetece pendurar na conversa delas.
De sexo não falam, mas em contrapartida falar de trapos é do melhor!
Desde a marca do que compram, às pechichas, às que já compraram, às que irão comprar, e o que as delicia mesmo comentar:
"A Xica Larica comprou isto ou aquilo, que lhe fica pessimamente, nela nada brilha e já viste, gasta fortunas!", isto faz com que o sorriso lhes transborde e até se ajeitam melhor no assento tal é a felicidade.
O ginásio ou a natação também constam nos diálogos, e aí podemos vislumbrar um brilhozito fugaz de luxuria no olhar, quando falam do professor das aulas, aleluia cheguei a pensar que elas era assexuadinhas de todo.
Despedem-se com sorriso e beijos e lá rumam aos empregos ou a casa.
Se o telemóvel toca ou elas ligam, por norma é para as mães, filhos, infantários e uma ou outra tem amigas, tudo muito saudavelzinho.
Mas eles são diferentes:
Por norma falam pouco, não têm grupinho, é o que calhar e sentam-se ao acaso e não marcam lugar para os amigos conhecidos.
Ouvem musica, passam os olhos nos jornais da estação (serem de borla até se lêem melhor) e alguns então lá começam a conversar.
Assunto primordial, futebol, e até se esquecem que estão a partilhar uma carrugem e alteram o tom de voz, esbracejam e largam gargalhas sonoras e jocosas, vê-se bem que vibram de prazer.
Falar dos carros é importante, as marcas, a funcionalidade os preços o consumo e afins, por norma o carro deles é excelente mas o do Administrador da empresa é um abuso!
Das crianças e esposas, não há conversa, estão lá em casa e assim é que estão bem!
Mas há um tema que eles gostam bastante... as gajas!
E aí aquelas carinhas de parvo que Deus lhes deu tranformam-se em carinhas de anormais/babosos, os olhitos brilham, as sobrancelhas erguem-se e o esgar dos lábios toma contornos libidinosos, têm escarrapachado na cara que vão ter conversas de ir ao pito. Ou melhor, que gostariam de ir e os pitos que não tocam mas cobiçam. Estas são para mim as conversas que me dão mais prazer ouvir.
Falam pouco ao telemóvel, por norma chamadas para a empresa, mas há os que têm as amantes, oh desses gosto eu, ligam para elas, com uma voz melosa, ronronam e sorriem com a tal cara de anormais/babosos,só que por vezes têm de interromper a converseta, para atender a esposa que está em espera e dizer-lhe secamente: "Tá bem eu vou buscar os miudos, é sempre a mesma coisa!"
Depois vem a juventude, oh céus são de bradar, a linguagem por vezes é indecifrável, consigo por vezes entender melhor aquelas senhoras que viajam em grupo, falam muito alto e em crioulo.
Os jovens machos falam de saídas à noite, combinam "cenas", falam da Faculdade, e delas claro, mas quando falam delas é dum jeito comedido, vá lá, salve-se qualquer coisinha.
As jovens fémeas, taditas, que coisinhas aberrativas, para começar, vestem todas da mesma maneira, consoante os grupos claro, e falam muitooooo alto, usam palavrões como usam as tintas que lhes borram o rosto, e falam mal das colegas e amigas, sempre a conspirar as próximas represálias "Tás a ver?".
E quando falam deles é uma peninha!
Uns são tão bonzinhos que até apetece namorá-los também,outros são "machos" a mandam-nas para o c*ralho batem-lhes e elas acabam, mas dão sempre uma "segunda chance" porque aquilo não foi por mal e errar é humano.
Há dias ao ouvir uma prelecção destas, quase me saltou a tampa e senti vontade de abanar a rapariga e dizer: Oh menina acorda para a Vida, se isso é agora mais tarde como será? Cresce filha, aprende a respeitar-te senão vais levar a viduncha a levar nos cornos!"
Os mais idosos, tadinhos, pouco falam e pouco viajam, as suas idas e vindas têm a ver com a Saude e os Hospitais, esses enternecem-me e ao mesmo tempo penso no meu amanhã.
E posto isto pergunto não querem viajar comigo?:)
Luisa