domingo, junho 21, 2009

Irmãs

Talvez eu tenha nascido como cú virado para a Lua, mas talvez tenha sido eu a insistir ficar com ele para a Lua virado, não sei...
Somos duas irmãs, com 4 anos e meio de diferença sendo eu a mais velha, diferentes em tudo, aspecto, forma de estar, de agir de... enfim tudo.
Eu a Luísa (Luisinha forever...) ela a Paula (Paulinha para alguns...) viemos ao mundo sem sermos planeadas, acho que naquela época não se planeava, acontecia,,,
E eu aconteci e fui benvinda pelos dois, uma porque queria muito casar o outro porque quando me viu se reviu em mim...
A Paula porque ela queria muito outro filho e ele resignado aceitou, ou será que aceitou mesmo???
Eu fui a Luisinha a menina, de todos ,a primeira sobrinha e neta do lado materno, a que interagia facilmente. mexia com todos e cativava, não por ser especial , mas mas porque era assim...
A Paula, fruto duma gravidez para lá de indesejada por parte do pai e muito desejada por parte da mãe. e com ela nasceu o fosso...
Ela ficou da mãe até à sua morte eu fiquei do pai até à sua morte,
Consequentemente tivemos tratamento diferente e educações diferentes, tornámo-nos o que eles fizeram de nós ,pessoas diferentes que coabitavam e cresciam juntas. mas longe uma da outra... sempre longe, porque nada e nem eles nos permitiam a aproximação.
Eu era a força, a irreverência, a luta persistente por mais e algo que idealizasse, como o pai me incutia,,, ela a subserviência, a sem aspirações ou ambições como a mãe lhe dizia que assim é que era uma "mulher".
Vivemos a infância que foi tranquila com dias pacificos outros de estalos e empurrões, o normal entre duas irmãs, e veio a adolescencia a minha primeiro e depois a dela. E o abismo ia ganhando cada dia mais contornos...
Eu sempre em festa, de saídas combinadas, amigas e festas, namoros em suma tudo o que me era devido e o que não era eu tomava por conta...
Ela só, em casa com a mãe, sem amigas, sem sucesso escolar e em casa sem objectivos para o futuro, sem planos, sem rumo mas também não parecia incomodada com isso, era assim a Paulinha..
Não chegou a concluir o 9ª ano, mesmo depois de ser tranferida para um Colégio...
"Ela não gosta da escola.. "dizia a minha mãe complacente,,,.
O fosso ia ficando dia a dia maior.
Casei aos 21 anos, uma miuda/mulher e saí da Amadora para a Margem Sul a distância aumentou, a cumplicidade que nunca se chegara a cumprir não tinha melhores dias agora...
E de sopetão veio o divórcio dos pais,,,
Apanhadas de supresa e vivendo eu na vivenda que existia na margem sul e ela no apartamento da Amadora, ambos dos pais, ficamos compulsivamente, cada uma com o seu,,,,
Obviamente eu com o pai e ela com a mãe.
Fosso maior....
Ela casou, com um individuo reles que nunca aceitei ...
Maior a distância.
Vieram os filhos, eu duas meninas ela dois meninos....
Sana a menina do Vô .... Hugo o menino da Vó...
Sempre.. diferenças sempre... sem nos pouparem, sem nos questionarem, sem darem conta do que nos faziam....
Vivemos longe, aproximavamo-nos ás vezes... mas, eu e aquele marido dela, não dava, surgia o afastamento inevitável que ela aceitava porque ele era ele...e eu era apenas .. a mana..
Anos a fio assim...
Um dia ela muda de local de residencia, de vida e .... divorcia-se....
Alivio, alegria, contar o que eu não suspeitava o que eu pensava ser impossível viver e ela viveu, maus tratos, abusos, e inclusivé sustentar aquele animal e os seus vicios...
Afinal existia uma explicação para tudo o que me confundia e deixava atónita e consequentemente me afastava.. porque não aceitava e achava que ela não via o que eu via....
Chorei e disse: "porque nunca me contáste???"
Ouvi a resposta com uma voz plácida e tranqulia...
"Porque tu não ias aceitar e temia o que farias, porque tu és forte e voluntariosa!"
A seu tempo surge na vida dela um amor, amor que a ajudou a viver feliz... dois anos,
Quando ela falou em casar , passados três meses de envolvência, eu disse:
Oh Paula não cases!!!!!!!!!!!! Na nossa vida não há tempo para recasar.. camisas no teu cesto da roupa para depois lavares?
Não!
Comida a horas??
Não!
Dar satisfações de onde vais o que fazes e o que gastas?
Não!!!!!!!!!
Chega mana!
Aproveita um dia de cada vez e não mistures a tua vida mais uma vez..."
Mas misturou. e casou... (eu não fui ao casamento,,,) e há mais de 1 mês que a relação acabou.. ou está parada não sei,,,
Tudo o que parecia um conto de fadas ruiu... e com esse conto ela também...
Dois filhos um com a idade da Ju autónomo e de costas meio voltadas para a mãe... aceitar outro homem na vida da mãe não foi fácil, mas a mãe se calhar não explicou.. ou explicou e ele não ouviu, não sei,,,
Outro filho de 18 anos, educado à semelhança do pai, meio marginal, envolto no mundo da mentira do oportunismo, da vida fácil.. e ela sempre o protegeu mais que ao outro e eu sempre a alertar...
Agora vive com o pai... e ela está só..
Ontem falámos ao telefone.. e ela está doente só.. sem ânimo... derrotada.. à espera não sabe bem do quê... sem aceitar ajuda (orgulho é a sua palavra chave) e eu impotente...
Sentindo-me mal por ter o que tenho e infeliz por vivermos a mais de 200km de distância...
Sem pedir consentimento aqui em casa.. ontem ousei dizer..." vem para ao pé de mim.. eu marco consultas para veres da tua saúde e no que poder eu ajudo..."
Ouvia o seu sorrriso.. "Obrigada mana.. mas o meu lugar é aqui, mas só o que ofereceste vale muito, porque nunca me ofereceram nada..."
E eu pergunto será justo o que nos aconteceu???
Porquê???
Eu balbuciei... "Paula eu tou contigo , e a sério não hesites em ligar do perto se faz longe, afinal só restamos as duas...Sangue do mesmo sangue..."

E ela a rir disse: "Uma puta duma vida... onde nunca nos ensinaram que eramos sangue do mesmo sangue, e, é agora a bater nos 50 que ambas aprendemo isso à nossa custa..."

Fiquei em silêncio porque palavras não havia a acrescentar,,,

Vitimas do erro dos outros?

Ou vitimas de nós mesmas que só agora aprendemos o que é a palavra:

Irmãs???

O que seja não interessa, o que importa é não nos larguemos hoje, amanhã e até que Deus nos permita...

Mana eu acho que nunca te disse.... mas eu gosto imenso de ti!

Luisinha (eu a tua mana)

4 comentários:

Quase nos 50 disse...

Um beijo grande e siga o seu coração

mjf disse...

Olá!
Lu, fiquei emocionada...
Duas manas...dois destinos, tão diferentes:=(
Tenta aproximar-te dela...nunca é tarde, e tu tens um coração de ouro:=))
Talvez por isso eu sempre quis um(a( filha unica:=))

Beijocas

Madá disse...

identifico-me com vários pontos da tua estória, também por cá assim se deu. Será 'típico' da educação de Portugal? nunca saberei. Também nos reveses da vida é que me juntei à minha, sempre espinhenta. A relação vai-se construindo. vejo algum crescimento, mas oh, a muito custo emocional... enfim, quem é que tem culpa? ninguém, eu acho. sobreviventes de nós mesmas. não resta outra alternativa senão continuar tentando, sempre...

TERESA NETO disse...

Querida estende a tua mão e teras a tua mana a segurar pois ela precisa
eu sei o que é ter irmãos e eles estenderem a mão para eu não cair
faz o mesmo pois Deus te compensará os anos perdidos beijus querida no teu coração de ouro
Teresa